Minas Gerais entra na disputa para virar polo brasileiro de data centers

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez Tecnologia
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 Estado aposta em incentivos fiscais e estudos sobre a rede elétrica para atrair centros de processamento de dados voltados à inteligência artificial

 

Minas mira o gargalo energético de São Paulo

 

Com São Paulo se aproximando do limite de capacidade energética para receber novos empreendimentos de tecnologia, Minas Gerais surge como opção estratégica para sediar data centers no país, apoiado em incentivos fiscais e em uma localização considerada vantajosa para o processamento de dados e para aplicações de inteligência artificial, segundo avaliação da Federação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação do Estado de Minas Gerais, a Assespro-MG. Assespro-mg

Segundo a entidade, o estado já reúne dois ou três projetos em andamento, entre eles o empreendimento batizado de Leopoldina, na Zona da Mata, com previsão de conclusão até o fim deste ano, além de outro projeto de grande porte ainda em fase de planejamento em Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Há também movimentação de instalação de centros de dados na região metropolitana de Belo Horizonte e no norte do estado, o que indica que o interesse não está concentrado em um único ponto do território mineiro. Assespro-mg

Esse movimento não acontece por acaso. A corrida global pela expansão da inteligência artificial encontrou no planejamento energético de Minas Gerais um novo vetor de atração de capital. Para viabilizar essa estratégia, o governo estadual avançou na estruturação de uma política pública voltada à atração de infraestrutura de tecnologia de ponta, apoiada em um estudo técnico conjunto conduzido pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, por meio da Invest Minas, em parceria com a Cemig. Cenarioenergia

Estudo técnico avalia capacidade da rede elétrica

 

O objetivo central desse levantamento é avaliar se a malha de transmissão e distribuição de energia do estado tem capacidade para suprir as demandas elétricas de data centers de grande porte, já que essa é justamente a variável mais sensível para a instalação desse tipo de empreendimento. A disponibilidade de potência firme e a estabilidade da rede costumam pesar tanto ou mais do que os incentivos fiscais na hora de uma empresa decidir onde instalar seus servidores.

O tema também já entrou na agenda do empreendedorismo mineiro. Em junho, o Minas Summit, considerado o maior evento de inovação do estado, colocou inteligência artificial e mercado de games como destaques centrais de sua programação pela primeira vez, reunindo cerca de duas mil startups e quatrocentos palestrantes, com expectativa de movimentar R$ 100 milhões em negócios a partir das conexões geradas no encontro.

Nem tudo, porém, caminha sem ressalvas. Uma reportagem publicada em julho revelou que um terreno em Uberlândia teve seu preço disparar depois do anúncio da construção de um data center de inteligência artificial no local, e que a área está registrada em nome de um fundo administrado por gestoras investigadas pela Polícia Federal no caso do Banco Master. Intercept Brasil

Caso em Uberlândia expõe fragilidades do setor

 

A empresa responsável por executar o empreendimento, a RT-One, foi apontada como não tendo experiência comprovada no setor de tecnologia. Após a repercussão do caso, a própria empresa recuou. Em atualização publicada dias depois da reportagem original, ficou registrado que a RT-One desistiu do negócio envolvendo aquele terreno específico em Uberlândia, o que não significa, porém, que o projeto de data center na região tenha sido descartado por completo, já que outras áreas seguem sendo avaliadas pelo mercado.

Episódios como esse acenderam um alerta entre parlamentares e pesquisadores mineiros. A ausência de uma regulamentação específica para a instalação de data centers de inteligência artificial em Minas Gerais tem despertado preocupação entre parlamentares, pesquisadores, movimentos sociais e especialistas em meio ambiente, que veem no vácuo regulatório um risco para a transparência e para a avaliação adequada dos impactos socioambientais desses empreendimentos. Brasil de Fato

O debate ganhou um capítulo formal em audiência pública realizada na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa, solicitada pela deputada estadual Bella Gonçalves (PT) justamente depois do anúncio do projeto da RT-One em Uberlândia. O consenso entre os participantes foi de que a falta de regras claras tem tornado o estado um destino atrativo para grandes empresas de tecnologia sem as garantias necessárias de fiscalização.

Próximos passos para consolidar o setor em Minas

 

Ainda assim, o governo mineiro segue tratando o setor como prioridade econômica. A ideia é que a combinação entre disponibilidade energética, terrenos amplos no interior e uma política tributária competitiva coloque Minas Gerais em posição de disputar diretamente com estados que hoje concentram esse tipo de investimento, aproveitando justamente o gargalo que São Paulo enfrenta.

O desafio para os próximos meses será equilibrar essa corrida por investimentos com a criação de regras que deem segurança jurídica e ambiental tanto para as empresas quanto para as comunidades onde os data centers serão instalados. Sem essa regulamentação, episódios como o do terreno ligado ao caso Master tendem a se repetir, colocando em risco a credibilidade de um setor que o próprio estado está tentando atrair.

Se os projetos anunciados avançarem conforme o cronograma, Minas Gerais poderá ter seu primeiro grande centro de dados voltado à inteligência artificial em operação ainda neste ano, um marco que os defensores da política estadual apontam como o início de um novo ciclo econômico ligado à economia digital.

Fontes:
Assespro: Redução de ICMS e incentivos fiscais podem tornar Minas Gerais polo de data centers
Cenário Energia: Cemig e Invest Minas mapeiam infraestrutura elétrica para atrair data centers de grande porte
The Intercept Brasil: Preço de terreno ligado ao Master supervaloriza após anúncio de data center em Minas Gerais
Brasil de Fato: Sem regulação, avanço de data centers de IA em MG acende alerta para impactos ambientais