Cientistas defendem centro de tecnologia avançada para terras raras em Poços de Caldas

Daphne Vercelli
Por Daphne Vercelli Tecnologia
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Proposta do Citar prevê investimento estimado em R$ 40 milhões e pretende transformar o Sul de Minas em referência em pesquisa, processamento mineral, formação de profissionais e monitoramento ambiental da exploração de minerais estratégicos.

Cientistas, pesquisadores e representantes de instituições de ensino defenderam, nesta terça-feira (25 de agosto), a criação do Centro de Inteligência e Tecnologia Avançadas em Terras Raras (Citar) em Poços de Caldas, no Sul de Minas Gerais. A proposta foi discutida durante audiência pública da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e busca estruturar na região um polo dedicado à pesquisa científica, inovação tecnológica e monitoramento ambiental relacionados à exploração de minerais críticos. O assunto ganha relevância diante do avanço de projetos minerários no Planalto de Poços de Caldas e do papel das terras raras na produção de equipamentos de alta tecnologia. (almg.gov.br, portal.pcs.ifsuldeminas.edu.br)

A audiência reuniu representantes do IFSULDEMINAS, Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG), Ibama, Ministério da Educação, Autoridade Nacional de Segurança Nuclear e outras instituições. O objetivo foi discutir como Minas Gerais pode aproveitar economicamente suas reservas minerais sem limitar sua participação à extração e exportação de matérias-primas. A proposta defendida pelos pesquisadores é ampliar a capacidade científica e tecnológica da região para acompanhar os empreendimentos, desenvolver técnicas de processamento e produzir conhecimento independente sobre seus possíveis impactos. (almg.gov.br, almg.gov.br)

O que é o Citar e por que o centro é considerado estratégico

O Citar é uma iniciativa elaborada pelo Instituto Federal do Sul de Minas (IFSULDEMINAS), Campus Poços de Caldas, em parceria com a Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG). A proposta já havia sido apresentada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em junho e prevê uma estrutura capaz de unir pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico, capacitação profissional e acompanhamento ambiental. O projeto foi concebido diante da perspectiva de expansão da exploração das terras raras no Sul de Minas e da necessidade de criar capacidade científica local para acompanhar esse processo. (pcs.ifsuldeminas.edu.br)

A intenção é evitar que a região se transforme apenas em fornecedora de minério bruto. Pesquisadores defendem que o Brasil avance também nas etapas tecnológicas posteriores à extração, incluindo processamento, separação, refino e desenvolvimento de aplicações industriais. Quanto maior o domínio dessas etapas, maior tende a ser a possibilidade de agregar valor aos minerais antes que sejam incorporados às cadeias produtivas de equipamentos eletrônicos, veículos elétricos, energia renovável e outras tecnologias avançadas. (almg.gov.br, pcs.ifsuldeminas.edu.br)

Terras raras são essenciais para tecnologias modernas

As terras raras formam um conjunto de 17 elementos químicos metálicos utilizados em produtos e equipamentos de alta tecnologia. Apesar do nome, esses elementos não são necessariamente escassos na crosta terrestre. O principal desafio está em encontrar concentrações que permitam exploração economicamente viável e realizar posteriormente os complexos processos necessários para separar e processar os diferentes elementos. (almg.gov.br, almg.gov.br)

Esses minerais possuem aplicações em setores considerados estratégicos para a economia contemporânea. Eles podem ser encontrados em componentes de celulares, motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos avançados e diferentes tecnologias ligadas à transição energética. O crescimento mundial desses mercados elevou a importância das reservas e transformou os minerais críticos em tema econômico, tecnológico e geopolítico para diferentes países.

Poços de Caldas concentra importantes reservas minerais

O Planalto de Poços de Caldas aparece como uma das regiões brasileiras de destaque nesse cenário. Durante a audiência, o diretor-geral do IFSULDEMINAS – Campus Poços de Caldas, Rafael Felipe Coelho Neves, apresentou estimativa segundo a qual a região vulcânica concentraria 15% das terras raras do planeta. A área mencionada abrange 12 municípios e já possui dois grandes empreendimentos em estágio avançado de licenciamento. (almg.gov.br)

A presença dessas reservas aumenta o interesse econômico pela região, mas também amplia a necessidade de estudos científicos e acompanhamento dos projetos. O desenvolvimento de uma cadeia de terras raras pode gerar investimentos, formação profissional e novas atividades industriais, porém a mineração também apresenta desafios relacionados à utilização de recursos naturais, produção de resíduos e transformação do território. É nesse ponto que os defensores do Citar argumentam que ciência e tecnologia precisam acompanhar a expansão da atividade desde suas primeiras etapas.

Centro deverá pesquisar novas tecnologias de processamento

Uma das principais áreas previstas para o Citar é o desenvolvimento de tecnologias relacionadas ao processamento mineral. A proposta é criar capacidade técnica e científica para que instituições brasileiras participem de etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva. Atualmente, um dos desafios estratégicos do setor está justamente em transformar reservas minerais em produtos de maior valor tecnológico.

Durante a audiência, o diretor da Unifal-MG em Poços de Caldas, Leonardo Henrique Damasceno, defendeu que o País precisa avançar além da exportação dos minerais extraídos. Para isso, seriam necessários investimentos em técnicas de refino e outras etapas de processamento. A criação de infraestrutura científica regional permitiria desenvolver pesquisas nessa direção e formar profissionais especializados para uma eventual expansão da cadeia produtiva. (almg.gov.br)

Projeto também prevê monitoramento ambiental permanente

O Citar não foi concebido apenas como centro de desenvolvimento de tecnologias de mineração. Outra frente central da proposta é o monitoramento ambiental independente dos empreendimentos relacionados às terras raras. Os estudos poderão envolver qualidade do ar, recursos hídricos, biodiversidade, características dos solos, hidroquímica, ecologia e outras áreas necessárias para acompanhar transformações provocadas pela atividade minerária. (pcs.ifsuldeminas.edu.br)

Durante a discussão na ALMG, especialistas chamaram atenção para possíveis impactos associados à mineração, incluindo supressão de Mata Atlântica, geração e acúmulo de resíduos e níveis elevados de ruído capazes de interferir na fauna. Os participantes defenderam a realização permanente de estudos científicos para identificar os efeitos da atividade e desenvolver medidas destinadas a reduzir os danos ambientais. (almg.gov.br)

Pesquisadores defendem mineração com menor impacto

Um dos argumentos apresentados durante a audiência foi que não existe mineração totalmente livre de impactos ambientais. Leonardo Damasceno destacou, entretanto, que é possível buscar modelos de exploração com menor impacto, apoiados por ciência, tecnologia e acompanhamento contínuo. Essa visão está diretamente relacionada à proposta do Citar, que pretende aproximar universidades e institutos federais das decisões sobre o desenvolvimento da mineração na região. (almg.gov.br)

O desafio será conciliar interesses econômicos com a proteção ambiental e as necessidades das comunidades próximas às áreas de exploração. Moradores da região já manifestaram preocupações relacionadas à qualidade do ar e à disponibilidade de água. A criação de estruturas locais capazes de realizar pesquisas independentes poderia fornecer informações técnicas para governos, comunidades e instituições responsáveis pelo licenciamento e fiscalização.

Citar será formado por estruturas complementares

A proposta prevê que o centro seja estruturado a partir de unidades ligadas às instituições participantes. Segundo informações apresentadas na ALMG, o Centro de Inovação 4.0 e Engenharia Sustentável (Cies) deverá ser construído no campus da Unifal-MG, enquanto o Centro de Estudos Ambientais em Mineração (Ceam) terá sede no IFSULDEMINAS. As duas estruturas, trabalhando de maneira integrada, formarão o Citar. (almg.gov.br)

Esse modelo permite dividir as atividades entre desenvolvimento tecnológico e acompanhamento ambiental, mantendo ao mesmo tempo uma estrutura integrada de pesquisa. A expectativa é que laboratórios e pesquisadores possam produzir conhecimento aplicado às características específicas do Planalto de Poços de Caldas, em vez de depender exclusivamente de estudos desenvolvidos em outras regiões ou por empresas diretamente interessadas na exploração mineral.

Investimento estimado para implantação é de R$ 40 milhões

A implantação do Citar está estimada em aproximadamente R$ 40 milhões, conforme informações apresentadas pelo IFSULDEMINAS. O financiamento poderá envolver recursos estaduais e verbas do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). A viabilidade da iniciativa já vinha sendo analisada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. (almg.gov.br, pcs.ifsuldeminas.edu.br)

Outra possibilidade mencionada durante a audiência está relacionada ao mecanismo Juros por Educação, associado ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag). Segundo representante do Ministério da Educação, o mecanismo pode gerar cerca de R$ 1,09 bilhão em Minas Gerais, com possibilidade de utilização de recursos para laboratórios, equipamentos, infraestrutura e expansão da educação profissional técnica, respeitadas as regras do programa. (almg.gov.br)

Formação de profissionais será uma das prioridades

Além dos laboratórios e pesquisas, a formação de mão de obra especializada é considerada parte fundamental do projeto. A exploração e o processamento de terras raras exigem profissionais de diferentes áreas, incluindo engenharia, química, geologia, meio ambiente, tecnologia e análise de dados. Construir essa capacidade dentro da própria região pode permitir que parte dos empregos qualificados gerados pela cadeia mineral seja ocupada por trabalhadores formados em Minas Gerais.

A presença do IFSULDEMINAS e da Unifal-MG no projeto fortalece justamente essa dimensão educacional. As instituições poderão aproximar ensino, pesquisa e demandas produtivas, preparando profissionais para atividades que vão desde monitoramento ambiental até desenvolvimento de processos tecnológicos mais avançados. A estratégia também pretende fazer com que os benefícios econômicos da exploração mineral não fiquem restritos à extração das reservas.

Centro pode fortalecer tecnologia nacional

A discussão sobre o Citar também possui uma dimensão de soberania tecnológica. Países que dominam tecnologias de separação, processamento e utilização de minerais estratégicos ocupam posições mais relevantes nas cadeias globais de produtos avançados. O Brasil possui reservas importantes, mas ampliar sua participação nessas cadeias exige capacidade científica, infraestrutura e domínio de tecnologias que permitam transformar o minério em materiais e componentes de maior valor.

Nesse sentido, o centro de Poços de Caldas poderia funcionar como instrumento para reduzir a distância entre a disponibilidade dos recursos naturais e o desenvolvimento de tecnologia nacional. Em vez de simplesmente retirar minerais do solo, a proposta busca criar conhecimento, formar pesquisadores, produzir tecnologias e fortalecer a capacidade brasileira de participar das etapas mais sofisticadas da cadeia.

Governo federal já recomendou criação do centro

A criação do Citar foi recomendada em relatório do governo federal relacionado à mineração de terras raras no Sul de Minas. A proposta também foi apresentada diretamente ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em junho. Na ocasião, representantes do IFSULDEMINAS e da Unifal-MG defenderam que a estrutura poderia produzir pesquisas independentes sobre impactos ambientais, sociais e tecnológicos associados à exploração desses minerais. (almg.gov.br)

O projeto, entretanto, ainda depende da consolidação das fontes de financiamento e de decisões necessárias para sua implantação. A audiência realizada na Assembleia nesta terça-feira serviu para ampliar a discussão e reunir representantes de instituições científicas, órgãos públicos e entidades ambientais em torno da proposta.

ALMG pretende ampliar discussão com governo de Minas

Após a audiência, a expectativa é ampliar a participação do Executivo estadual no debate. A deputada Beatriz Cerqueira informou que o próximo passo deverá envolver as secretarias estaduais da Fazenda e da Educação. A intenção é discutir de que maneira Minas Gerais pode participar do financiamento e da construção de uma estratégia relacionada às terras raras. (almg.gov.br)

A discussão ganha importância porque decisões tomadas nos próximos anos podem determinar qual papel Minas Gerais terá nessa cadeia produtiva. O estado pode atuar predominantemente como fornecedor de matéria-prima ou buscar ampliar investimentos em pesquisa, qualificação, processamento e desenvolvimento tecnológico. Os defensores do Citar sustentam que a segunda alternativa pode gerar maior valor econômico e científico para a região.

Ciência, tecnologia e proteção ambiental entram no mesmo projeto

O debate realizado na ALMG mostra que a exploração das terras raras em Poços de Caldas envolve muito mais do que mineração. A disponibilidade desses elementos coloca o Sul de Minas no centro de discussões sobre indústria tecnológica, transição energética, desenvolvimento regional, qualificação profissional, proteção ambiental e autonomia científica brasileira.

A proposta do Citar tenta reunir essas diferentes dimensões dentro de uma única estrutura. Caso seja viabilizado, o centro deverá combinar pesquisa científica, desenvolvimento de tecnologias de processamento, formação de profissionais e monitoramento dos impactos ambientais. A iniciativa ainda precisa avançar em financiamento e implantação, mas a audiência de 25 de agosto de 2026 reforçou a articulação de pesquisadores e instituições para transformar Poços de Caldas em referência nacional no estudo das terras raras. (almg.gov.br, portal.pcs.ifsuldeminas.edu.br)

Fontes

ALMG — Cientistas defendem criação de Centro de Inteligência e Tecnologia em Terras Raras

ALMG — Audiência pública de 25 de agosto sobre o Citar

IFSULDEMINAS — Instituto defende criação do Citar em audiência na ALMG

IFSULDEMINAS — Proposta do Citar apresentada ao Ministério da Ciência e Tecnologia