Relatório aponta suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e interferência em investigações; ex-dirigente da Polícia Federal está entre os principais investigados
Um novo desdobramento da Operação Rejeito ampliou as investigações sobre suspeitas de irregularidades envolvendo negócios de mineração em Minas Gerais. A Polícia Federal indiciou dez pessoas por suposta participação em uma organização criminosa que, segundo os investigadores, teria utilizado pagamento de propina, empresas de fachada e influência de agentes públicos para favorecer interesses privados relacionados ao setor mineral.
Entre os principais nomes investigados está o delegado federal Rodrigo de Melo Teixeira, ex-superintendente da Polícia Federal em Minas Gerais e ex-diretor de Polícia Administrativa da corporação em Brasília. Segundo o relatório da investigação, ele teria exercido papel central na estrutura investigada. O indiciamento não representa condenação, e as responsabilidades ainda dependem das etapas posteriores da investigação e de eventual processo judicial.
Investigação é desdobramento da Operação Rejeito
A nova apuração está ligada à Operação Rejeito, que investiga suspeitas de corrupção, irregularidades ambientais e negócios envolvendo direitos minerários em Minas Gerais. O relatório referente ao atual núcleo investigou fatos ocorridos entre setembro de 2025 e junho de 2026.
Segundo informações divulgadas sobre o relatório da PF, os dez investigados foram indiciados por diferentes suspeitas, que incluem organização criminosa, corrupção ativa e passiva, lavagem de capitais, violação qualificada de sigilo funcional e abuso de autoridade. A atribuição específica dos crimes varia conforme a participação apontada para cada investigado.
A investigação procura reconstruir como interesses empresariais e agentes com trânsito dentro do poder público teriam se articulado para conseguir vantagens em negócios ligados à mineração.
PF aponta influência sobre negócios minerários
De acordo com a investigação, Rodrigo Teixeira teria utilizado o prestígio e os contatos decorrentes dos cargos públicos que ocupou para favorecer interesses do grupo. A PF sustenta que ele teria participação oculta em empresas relacionadas a negócios minerários, embora essa participação não aparecesse formalmente nos registros societários.
Um dos negócios investigados envolve a Gmais Ambiental. A apuração aponta vínculos entre a companhia e outra empresa envolvida em negociações de direitos minerários. Segundo as investigações, esses ativos teriam potencial para produzir retornos financeiros milionários.
A PF estima que direitos minerários associados ao negócio já teriam gerado aproximadamente R$ 4 milhões e poderiam resultar em valores de até R$ 27 milhões relacionados à participação atribuída pelos investigadores ao núcleo empresarial ligado ao delegado.
Autorizações ambientais estão no centro da apuração
Parte importante do caso envolve a obtenção de autorizações necessárias para projetos de mineração. A Polícia Federal investiga se integrantes do grupo recorreram à influência sobre agentes públicos e ao pagamento de vantagens indevidas para facilitar processos ambientais e minerários.
Essas autorizações são fundamentais para empreendimentos do setor. Empresas precisam cumprir uma série de requisitos antes de iniciar atividades de pesquisa e exploração, especialmente quando existem riscos ambientais ou áreas sensíveis envolvidas.
A suspeita investigada é de que integrantes da organização tenham tentado contornar essas barreiras por meio de relações com servidores e pessoas que possuíam influência dentro da administração pública.
PF também investiga tentativa de interferência em apurações
As suspeitas não se limitam aos negócios de mineração. A investigação aponta possíveis tentativas de interferir no funcionamento da própria Polícia Federal e em apurações relacionadas ao setor.
Segundo a PF, Teixeira teria usado sua posição e influência institucional para obter informações e interferir em procedimentos que poderiam afetar integrantes do grupo. A apuração também analisa possível vazamento de informações sigilosas.
Uma delegada aposentada da Polícia Federal está entre os investigados. De acordo com o relatório divulgado pela imprensa, ela é suspeita de ter utilizado sua função de maneira irregular para beneficiar interesses ligados ao grupo.
Projeto bilionário aparece em outro braço da investigação
Documentos analisados pela Polícia Federal também revelaram negociações relacionadas a direitos minerários localizados em uma área vinculada ao chamado Projeto Apolo, na Região Central de Minas Gerais.
A investigação identificou dois direitos minerários formalmente transferidos para uma empresa que teria entre seus beneficiários ocultos integrantes do grupo investigado. A área está relacionada ao território onde existe um projeto de mineração entre Caeté e Santa Bárbara.
Estimativas obtidas a partir de documentos apreendidos apontam para um potencial de produção de aproximadamente 300 mil toneladas por ano durante 35 anos. O valor bruto projetado da produção poderia alcançar cerca de R$ 3,39 bilhões.
Essas projeções representam estimativas econômicas encontradas durante a investigação e não significam que os valores tenham sido efetivamente obtidos pelos investigados.
Operação começou com ações em 2025
A Operação Rejeito ganhou grande repercussão em setembro de 2025, quando a Polícia Federal realizou uma ofensiva contra uma organização suspeita de crimes ambientais, corrupção e lavagem de dinheiro relacionados à mineração em Minas Gerais.
Na ocasião, foram cumpridos dezenas de mandados de busca e apreensão e de prisão preventiva, além de medidas de afastamento de servidores e bloqueio de recursos.
Rodrigo Teixeira chegou a ser preso naquele momento. Posteriormente, em dezembro de 2025, uma decisão do Supremo Tribunal Federal determinou sua soltura, juntamente com a de outros investigados, mediante medidas cautelares.
Investigação alcançou Agência Nacional de Mineração
A Operação Rejeito também possui braços relacionados à Agência Nacional de Mineração. Em junho de 2026, a Polícia Federal indiciou o diretor-geral da ANM, Mauro Sousa, em outra investigação ligada à exploração mineral na Serra do Curral.
Naquela apuração, a PF atribuiu ao dirigente suspeita de participação em uma associação voltada à exploração irregular de minério de ferro. Outros nomes ligados à agência e ao setor empresarial também foram incluídos nos inquéritos.
As diferentes frentes mostram a dimensão adquirida pelas investigações sobre a cadeia de autorizações, exploração mineral e fiscalização em Minas Gerais.
Serra do Curral é um dos pontos sensíveis
Parte das investigações anteriores está relacionada à Serra do Curral, formação montanhosa considerada um dos principais símbolos naturais de Belo Horizonte e de sua Região Metropolitana.
A mineração na região é alvo recorrente de debates ambientais e jurídicos. Projetos instalados ou planejados para áreas próximas envolvem discussões sobre licenciamento, preservação ambiental, recursos hídricos e impactos sobre comunidades.
Por isso, as investigações sobre eventuais interferências irregulares nos processos de autorização possuem impacto que vai além da esfera criminal. Elas também colocam em discussão os mecanismos de fiscalização utilizados para atividades econômicas de elevado impacto ambiental.
Indiciamento não significa condenação
O indiciamento representa a conclusão da Polícia Federal de que existem elementos que justificam atribuir formalmente aos investigados possível participação nos crimes apontados. Isso, porém, não equivale a uma condenação judicial.
Após a conclusão dos inquéritos, o material pode ser encaminhado às autoridades responsáveis pela análise do caso. Caberá ao Ministério Público avaliar as providências seguintes, incluindo eventual apresentação de denúncia, conforme os elementos reunidos.
As defesas também poderão contestar provas, interpretações e acusações apresentadas pelos investigadores durante eventual processo.
Defesa contesta acusações
A defesa de Rodrigo Teixeira contesta as conclusões da investigação. Em manifestação reproduzida pela imprensa, seus representantes sustentam que o relatório policial teria deixado de considerar elementos favoráveis ao delegado.
As acusações, portanto, permanecem sob contestação e ainda deverão passar pelo devido processo legal. Não há, neste momento, condenação definitiva relacionada a esse novo indiciamento.
Caso mantém mineração mineira sob atenção
O avanço da Operação Rejeito mantém sob atenção a relação entre mineração, licenciamento ambiental e funcionamento dos órgãos públicos em Minas Gerais. O Estado concentra uma das maiores atividades minerárias do país, fazendo com que decisões administrativas relacionadas ao setor possam envolver projetos de grande impacto econômico e ambiental.
O novo relatório acrescenta outro capítulo às investigações iniciadas em 2025. Com dez pessoas indiciadas neste desdobramento e outras frentes da operação ainda produzindo consequências, o caso deverá continuar sendo acompanhado pelas autoridades responsáveis.
As próximas etapas serão importantes para determinar se as suspeitas apresentadas pela Polícia Federal resultarão em denúncias e processos judiciais e, posteriormente, se as acusações serão ou não confirmadas pela Justiça.
A informação central foi divulgada em 26 e 27 de agosto de 2026. O Estado de Minas confirma o indiciamento de Rodrigo Teixeira e as suspeitas de corrupção, lavagem e interferência em investigação; O Tempo informa que dez pessoas foram indiciadas nesse braço da apuração. (Estado de Minas)
Fontes: Estado de Minas — PF indicia ex-dirigente em MG · O Tempo — PF indicia dez pessoas no desdobramento da Operação Rejeito · UOL — investigação sobre corrupção no setor de mineração · O Tempo — investigação envolvendo direitos minerários na Região Central de MG