Festival de inovação em Santa Rita do Sapucaí, no Sul de Minas, mostra tecnologias que nasceram de problemas concretos do campo, da indústria e do setor elétrico
Um robô que trabalha debaixo do sol no terreiro de café, um foguete que já decolou no interior mineiro e uma inteligência artificial capaz de ler um desenho técnico em poucos minutos. À primeira vista, essas tecnologias parecem não ter relação entre si, mas todas nasceram de um problema concreto enfrentado por produtores, engenheiros e empresas, e ajudam a mostrar uma transformação que já chegou ao mundo do trabalho.
As iniciativas estão entre os projetos apresentados no HackTown, festival de tecnologia, inovação e criatividade realizado em Santa Rita do Sapucaí, cidade de cerca de 40 mil habitantes conhecida como o Vale da Eletrônica, no Sul de Minas. O evento reúne, todos os anos, pessoas de diferentes regiões do país interessadas em acompanhar de perto o que vem sendo desenvolvido em tecnologia, empreendedorismo e novos negócios.
Robô substitui esforço físico no terreiro de café
No campo, a tecnologia nasceu justamente onde falta gente para um trabalho que sempre dependeu de força e repetição. Depois de colhido, o café precisa passar pelo processo de secagem no terreiro, sendo espalhado e revirado várias vezes para que a umidade seja retirada de maneira uniforme, tarefa que exige tempo, mão de obra e esforço físico sob o sol.
Foi dessa dificuldade que surgiu uma plataforma robótica elétrica, desenvolvida em Santa Rita do Sapucaí e controlada remotamente, que percorre o terreiro movimentando os grãos e mantendo uma camada uniforme de cerca de um centímetro. Juliana de Araújo Moreira Ribeiro, administradora e produtora de café, conta que a máquina nasceu de uma dificuldade sentida dentro da própria propriedade, já que a atividade demanda muita mão de obra e esforço físico debaixo do sol.
Segundo ela, o equipamento permite ao produtor fazer o manejo do café à sombra, por controle remoto, sem o desgaste físico da exposição direta ao sol. Além de reduzir o esforço, a tecnologia interfere no tempo de produção: ao manter os grãos distribuídos de maneira uniforme, a plataforma pode antecipar em cerca de 30% o tempo de secagem, reduzindo de dez para aproximadamente sete dias o processo. A próxima versão do robô está sendo desenvolvida para operar de forma autônoma, usando inteligência artificial para definir o próprio caminho pelo terreiro, e já despertou interesse de produtores de 14 países, entre eles Índia, Vietnã, Colômbia e Equador.
De dez dias para cinco minutos: IA lê desenhos técnicos
Se no campo a máquina assume uma tarefa física, na indústria a inteligência artificial passou a atacar o tempo gasto para interpretar informações. Antes de fabricar uma peça, engenheiros precisam analisar desenhos técnicos com medidas, componentes e materiais, processo que pode levar dias em projetos mais complexos.
Uma ferramenta desenvolvida por uma empresa de São José dos Campos usa inteligência artificial para fazer uma primeira leitura desses desenhos e cruzar os dados com um banco de informações. Segundo Hugo Deleon, do setor comercial da empresa, um desenho que normalmente levaria de dez a quinze dias para ser interpretado passa a ser lido em cerca de cinco minutos. A tecnologia, criada inicialmente para a indústria de chicotes elétricos automotivos, já pode ser aplicada a outros setores que trabalham com desenhos técnicos bidimensionais.
Bilhão de dados por mês na rede elétrica mineira
Na rede elétrica, o desafio é o oposto: não falta informação, sobra. Medidores inteligentes registram a qualidade da energia com muito mais frequência do que os equipamentos tradicionais, gerando novos dados a cada 15 minutos. Douglas Vieira, engenheiro eletricista com doutorado em inteligência artificial e CEO de uma empresa de Belo Horizonte, explica que o problema deixou de ser a falta de dados e passou a ser o que fazer com eles para deixar o consumidor mais satisfeito.
A empresa desenvolve sistemas que usam esses dados para identificar falhas na rede, acompanhar a qualidade da energia em tempo real e indicar onde novos medidores inteligentes trariam mais benefícios. O volume dá a dimensão do desafio: são cerca de 600 mil medidores inteligentes, que geram mais de 1 bilhão de dados por mês, dentro de uma rede que atende aproximadamente 9 milhões de consumidores em Minas Gerais.
Foguete testado no interior mineiro
A mesma lógica de automação aparece em escala maior em um projeto aeroespacial. Um foguete desenvolvido pela equipe da Bizu, de São José dos Campos, realizou um voo de teste em Virgínia, no interior de Minas Gerais, em 29 de maio deste ano, e foi recuperado com o auxílio de um paraquedas após o lançamento. Segundo a equipe, foi o primeiro foguete brasileiro movido exclusivamente por propulsão líquida a realizar um voo.
Eduardo Seije, cientista molecular e engenheiro mecatrônico envolvido no projeto, explica que o equipamento serve para testar tecnologias necessárias em foguetes maiores, como motores, sistemas de recuperação e computadores de bordo. O projeto reúne uma equipe de 15 a 20 pessoas, entre engenheiros elétricos, químicos e civis, e representa um passo para ampliar a capacidade brasileira de desenvolver veículos capazes de chegar à órbita da Terra.
O que muda para quem trabalha
Os quatro exemplos parecem distintos entre si, mas apontam para a mesma mudança: máquinas assumindo partes de atividades que antes dependiam exclusivamente de pessoas. Para André Veloso, especialista em futuro do trabalho e cofundador de uma startup voltada ao tema, isso não significa que profissões inteiras vão desaparecer, mas que as tarefas mais operacionais tendem a ser assumidas pela inteligência artificial, exigindo dos profissionais mais foco em análise, criatividade e tomada de decisão.
Segundo Douglas Vieira, que acompanha a evolução da inteligência artificial desde o início dos anos 2000, o momento se compara à transformação provocada pela chegada da internet, quando o aumento de produtividade se converteu, ao longo do tempo, em ganhos de qualidade de vida. Ele afirma esperar que o avanço da IA siga o mesmo caminho, ampliando a produtividade sem reduzir espaço para o trabalho humano qualificado.
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