Cirurgia a 650 km de distância: como BH fez a primeira telecirurgia robótica de Minas Gerais

Daphne Vercelli
Por Daphne Vercelli Tecnologia
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 Dois urologistas, um no Hospital Orizonti e outro em um congresso em São Paulo, operaram juntos e em tempo real um paciente com câncer de próstata usando uma plataforma robótica com dois consoles

Minas Gerais realizou, em 5 de setembro, sua primeira telecirurgia robótica simultânea. O procedimento ligou Belo Horizonte a São Paulo e reuniu dois cirurgiões atuando em tempo real, separados por cerca de 650 quilômetros.

O paciente, um homem de 46 anos, passou por uma cirurgia robótica para tratar um câncer de próstata no Hospital Orizonti, na capital mineira. Segundo o hospital, o diagnóstico surgiu em um exame periódico feito no trabalho, detalhe que reforça o peso da prevenção antes mesmo de qualquer tecnologia entrar em cena.

 

Como a cirurgia foi feita

 

No centro cirúrgico em Belo Horizonte, o procedimento foi conduzido pelo urologista Mateus Furtado, coordenador de Cirurgia Robótica do Hospital Orizonti. Simultaneamente, um segundo urologista participou da operação a partir do XIX Congresso Paulista de Urologia, em São Paulo.

O ponto técnico central foi a arquitetura do sistema. A plataforma robótica EDGE foi ligada a dois consoles: um no centro cirúrgico, ao lado do paciente e da equipe, e outro no palco da plenária do congresso, onde o público acompanhou a cirurgia ao vivo.

Essa configuração não dispensou a presença física da equipe médica. Em Belo Horizonte, os profissionais permaneceram junto ao paciente durante toda a operação, responsáveis pela assistência, pela anestesia e pelo suporte necessário.

De acordo com Mateus Furtado, a integração entre os dois consoles permitiu controlar o sistema a distância sem abrir mão da equipe presencial. Para o médico, a experiência mostra como tecnologia, conectividade e colaboração podem “aproximar profissionais e ampliar as possibilidades da cirurgia robótica”.

 

A plataforma por trás do procedimento

 

O Hospital Orizonti foi a primeira instituição de Minas Gerais a receber o Sistema Robótico Cirúrgico Endoscópico Multiportal EDGE. Segundo dados do próprio hospital, o equipamento já foi usado em 232 cirurgias em quase seis meses de operação.

Entre os recursos da plataforma estão visualização em 4K e 3D, ampliação de imagem, sistema de fluorescência e instrumentos articulados e flexíveis, que facilitam procedimentos minimamente invasivos por pequenas incisões. Na chegada ao estado, o hospital informou que o conjunto inclui 31 instrumentos especializados e 7 flexíveis, pensados para diferentes complexidades anatômicas.

A fabricante, a Edge Medical, afirma que a tecnologia está presente em mais de 60 países e já foi utilizada em mais de 10 mil cirurgias. A empresa também reivindica experiências anteriores em telecirurgia, como uma operação entre Pequim e Roma em 2024 e um recorde mundial registrado em 2025 entre o Kuwait e Curitiba.

Vale observar o que ficou de fora da divulgação. O material do hospital não detalha o tipo de rede usada na conexão entre BH e São Paulo nem o tempo de resposta (latência) entre o comando do cirurgião remoto e o movimento do robô, informações decisivas em qualquer telecirurgia e que devem ganhar espaço à medida que a prática se expandir.

 

O que muda para pacientes e médicos

 

Em um estado com a extensão de Minas Gerais, esse tipo de solução pode estimular a colaboração entre profissionais de cidades diferentes e, em situações selecionadas, aproximar pacientes que vivem longe dos grandes centros de especialistas de referência. O hospital ressalta, porém, que a modalidade depende de indicação médica, infraestrutura adequada e cumprimento rigoroso de protocolos de segurança.

O avanço não surgiu isolado. Em agosto, Minas já havia registrado a primeira cirurgia robótica com decisão clínica compartilhada, em que cirurgiões do Rio de Janeiro e do Paraná, por telepresença, participaram ativamente das decisões durante o procedimento.

No cenário nacional, 2026 trouxe outros marcos para a área. A prostatectomia robótica passou a ter cobertura obrigatória pelos planos de saúde, e em julho o país realizou a primeira telecirurgia robótica para remoção de tumor renal com médico e paciente em cidades diferentes.

Para Mateus Furtado, a experiência reforça a integração entre equipes médicas e evidencia o potencial de Minas Gerais para incorporar soluções conectadas em áreas de alta especialização. O próximo passo, na prática, será mostrar se esse modelo consegue sair dos eventos demonstrativos e chegar à rotina dos hospitais mineiros.

Fontes: