Assumir a gestão em um lugar desconhecido: por onde começar?

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez Notícias
5 Min de leitura
Alfredo Moreira Filho

Um gestor recebe a missão de tocar uma operação em outra cidade, outro estado ou outro setor. Chega com o método que deu certo antes e descobre, em poucas semanas, que quase nada se aplica igual. Os fornecedores são outros, a lógica do trabalho local é outra, o que motiva a equipe é outro.

Essa distância entre o repertório trazido e o terreno encontrado é um problema técnico de gestão, não uma questão de sorte. Alfredo Moreira Filho, empresário com trajetória que começou na roça em Igrapiúna, na Bahia, e passou por Viçosa, Itacoatiara, Manaus e Tucumã antes de Brasília, nota que cada mudança de lugar impôs recomeçar o diagnóstico do zero.

O erro de chegar com a solução pronta

A tentação inicial é anunciar mudanças rápidas para marcar posição. Funciona como sinal político e falha como método. Quem decide antes de entender está apostando que o novo contexto se comporta como o anterior, e essa aposta costuma ser perdida em silêncio, meses depois.

Existe uma razão prática para isso. Toda operação carrega arranjos informais que ninguém documentou: um fornecedor que atrasa mas resolve emergência, uma pessoa sem cargo que destrava aprovações, um cliente que aceita prazo maior porque tem histórico. Cortar esses arranjos por desconhecimento é o modo mais comum de destruir valor sem perceber.

Diagnóstico começa por quem já estava lá

Um gerente assumiu uma unidade industrial e passou as três primeiras semanas conversando com o pessoal do turno da noite, o grupo com menos acesso à diretoria. Descobriu que uma parada recorrente de máquina, tratada como falha de manutenção, acontecia sempre depois de uma troca de lote feita às pressas no fim do turno anterior.

Alfredo Moreira observa que esse tipo de informação não aparece em relatório. Aparece em conversa, e apenas quando quem responde acredita que a resposta não vai gerar punição. A leitura correta de um ambiente novo depende mais de escutar do que de medir, ao menos no início.

O que não se transfere de um contexto para outro?

Método se transfere. Critério de decisão se transfere. Relações, reputação e conhecimento do terreno não se transferem, precisam ser reconstruídos. Gestores experientes erram justamente por subestimar a segunda lista, já que a primeira lhes deu resultado por anos.

Há um efeito colateral pouco discutido. Numa operação nova, o gestor não tem crédito acumulado, então cada decisão é avaliada isoladamente. Isso o torna mais dependente de acertar as primeiras, o que aumenta o valor de decidir devagar no começo para poder decidir rápido depois.

Quando adaptar, vira desculpa para não decidir?

O extremo oposto também custa caro. Existe o gestor que estuda o contexto indefinidamente, chama tudo de especificidade local e nunca enfrenta o que precisa mudar. Diagnóstico sem prazo deixa de ser prudência e vira paralisia.

A saída é definir o horizonte antes de começar: um mês para mapear, com data marcada para apresentar o que será alterado. Ao relembrar sua passagem por projetos em regiões distantes e de conflito social intenso, Alfredo Moreira Filho comenta que havia sempre um ponto em que ouvir mais deixava de acrescentar. Reconhecer esse ponto é parte da técnica.

Método viaja, resposta não

O gestor que muda de lugar leva consigo uma forma de pensar problemas, não um catálogo de soluções. Confundir as duas coisas produz o executivo que repete em Manaus o que funcionou em Belo Horizonte e culpa a cultura local pelo fracasso.

Talvez o benefício mais duradouro dessas mudanças seja outro, e menos evidente. Quem trabalhou em contextos muito diferentes perde a certeza de que existe um jeito certo universal de gerir. Alfredo Moreira avalia que essa dúvida produtiva, adquirida em deslocamentos sucessivos, vale mais do que qualquer receita consolidada, porque obriga a olhar cada operação como se fosse a primeira.