Dívida ou capital próprio: o que muda com juros altos?

Daphne Vercelli
Por Daphne Vercelli Notícias
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Pedro Daniel Magalhães

Toda empresa financia suas operações combinando duas fontes básicas: capital próprio e capital de terceiros. Segundo Pedro Daniel Magalhães, executivo com atuação em gestão financeira e crédito estruturado, uma equação que grande parte das empresas brasileiras resolve de forma reativa, aceitando a fonte mais acessível no momento em vez de avaliar qual combinação realmente maximiza o valor do negócio no longo prazo.

O problema fica mais evidente em ciclos de juros elevados, quando o custo da dívida sobe e a lógica que funcionava em um cenário de juros baixos deixa de fazer sentido. Entender como cada fonte de capital se comporta e o que realmente pesa nessa escolha ajuda a explicar por que empresas parecidas adotam estratégias de financiamento tão diferentes.

O que é, de fato, a estrutura de capital de uma empresa?

Estrutura de capital é o nome técnico para a forma como uma empresa combina capital próprio e capital de terceiros para financiar suas operações e investimentos. Essa combinação aparece no lado direito do balanço patrimonial e determina, entre outras coisas, o custo médio que a empresa paga para financiar cada projeto.

Não existe uma proporção universal considerada ideal. Empresas de setores mais estáveis, com fluxo de caixa previsível, costumam suportar mais dívida sem grande risco. Já negócios em setores voláteis, ou em estágio inicial de crescimento, tendem a se beneficiar de uma fatia maior de capital próprio, justamente por não terem a mesma previsibilidade de receita.

Por que dívida costuma custar menos, mas nem sempre vale mais?

A dívida carrega uma vantagem fiscal relevante: os juros pagos são dedutíveis do imposto de renda, o que reduz o custo efetivo desse tipo de financiamento. Ademais, Pedro Daniel Magalhães explica que, ao contrário do capital próprio, a dívida não dilui a participação dos sócios na empresa.

Pedro Daniel Magalhães
Pedro Daniel Magalhães

Essa vantagem tem contrapartida, dado que a dívida exige pagamentos fixos de juros e amortização, independentemente do desempenho da empresa naquele período. Em um ciclo de juros altos, esse compromisso fixo pode pressionar o caixa de forma severa, especialmente em negócios com receita mais instável.

Como o capital próprio muda de atratividade quando os juros sobem?

O capital próprio, por sua vez, não exige pagamento fixo: o retorno aos sócios e investidores depende do desempenho da empresa, o que reduz o risco de uma crise de caixa forçar a companhia à inadimplência. Em contrapartida, os investidores que aportam capital próprio esperam um retorno maior do que receberiam emprestando dinheiro a juros fixos, exatamente para compensar o risco que estão assumindo.

Quando os juros sobem, na leitura de Pedro Daniel Magalhães, essa equação muda: o custo da dívida encarece, e o capital próprio, mesmo exigindo um retorno esperado mais alto, passa a representar uma opção comparativamente mais segura para empresas que não querem comprometer o caixa com parcelas fixas em um ambiente de juros elevados.

Que fatores pesam além do custo na hora de decidir?

O custo de cada fonte de capital é apenas parte da equação. O apetite dos sócios para manter o controle acionário, a estabilidade do fluxo de caixa do setor e a disposição para diluir participação em troca de crescimento mais acelerado também entram na decisão.

Empresas com sócios avessos à diluição tendem a priorizar dívida, mesmo pagando um pouco mais caro por isso, enquanto negócios que priorizam crescimento rápido e têm acesso a investidores estratégicos costumam aceitar diluir parte do controle em troca de capital sem a obrigação de pagamentos fixos.

Como encontrar o equilíbrio certo para cada momento?

Não existe uma fórmula fixa que sirva para todas as empresas, mas existe um princípio que atravessa qualquer cenário: quanto mais previsível o fluxo de caixa, maior a capacidade de sustentar dívida sem risco excessivo, e quanto maior a incerteza sobre o futuro, maior o peso que o capital próprio deveria ter na equação.

Em suma, Pedro Daniel Magalhães resume que as empresas maduras revisam essa combinação periodicamente, em vez de tratá-la como uma decisão tomada uma única vez na fundação do negócio, ajustando a proporção entre dívida e capital próprio conforme o ciclo econômico e o momento da própria companhia.