Falar sem julgar protege o vínculo com quem vive uma relação abusiva, compara Taiza Tosatt Eleoterio

Daphne Vercelli
Por Daphne Vercelli Notícias
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Taiza Tosatt Eleoterio

Frases ditas com boa intenção podem afastar justamente quem mais precisa de companhia. Para a psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, o modo como familiares e amigos reagem ao relato de uma relação abusiva pesa tanto quanto a quantidade de apoio oferecido. Quem está dentro desse tipo de relação costuma medir cada palavra ouvida, e uma resposta que soa como cobrança tende a encerrar a conversa por muito tempo.

Por que uma frase de cobrança fecha a porta?

Perguntas que cobram uma saída imediata, como querer saber por que a pessoa não vai embora, parecem curiosidade, porém carregam um julgamento escondido. Quem ouve entende que a situação seria simples de resolver e que ela estaria falhando por não fazê-lo. Em muitos casos, o sentimento de vergonha já é grande, e a cobrança só o reforça, levando ao silêncio e à decisão de não contar mais nada a ninguém.

Na leitura de Taiza Tosatt Eleoterio, a permanência numa relação abusiva raramente se explica por uma única razão. Medo, dependência emocional, esperança de mudança e cansaço se misturam, e cada um pesa de um jeito diferente de pessoa para pessoa. Por isso, uma pergunta que reduz tudo a uma escolha racional ignora a complexidade do que acontece, e quem ouve percebe que não foi compreendido.

O que dizer no lugar de criticar o parceiro?

No lugar de criticar o parceiro, convém descrever o que se percebe sobre a própria pessoa: o cansaço, a tristeza, a mudança na rotina. Falar mal de quem a mulher ainda está ligada costuma sair pela culpa, e quando amigos e parentes atacam essa pessoa, ela tende a defendê-la, e a conversa vira uma disputa em que se sente obrigada a escolher um lado. O vínculo com quem tenta ajudar fica então ameaçado, e o isolamento, que costuma sustentar o abuso, avança.

Como observa Taiza Tosatt Eleoterio, é mais útil descrever o que se percebe sobre a própria pessoa do que sobre o outro. Dizer que ela parece cansada, ou que sua falta é sentida, abre espaço para uma resposta sincera sem exigir defesa. A conversa se mantém aberta, e o contato regular, mesmo curto, vale mais do que um discurso certeiro dito uma única vez.

Como a pressa por uma decisão atrapalha o relacionamento abusivo?

Outro tropeço frequente é exigir uma decisão imediata: ultimatos, prazos e ameaças de afastamento caso ela não se separe. Quem está em um relacionamento abusivo vive sob controle e já recebe ordens demais, de modo que uma exigência vinda de fora pode soar como mais uma forma de comando, ainda que movida por afeto. O resultado costuma ser o oposto do desejado, com a pessoa se afastando de quem pressiona.

Na visão de Taiza Tosatt Eleoterio, o tempo de cada mulher precisa ser respeitado, porque a saída de uma relação assim é um processo, e não um único ato. Respeitar esse tempo não significa concordar com o que acontece nem fingir que está tudo bem. Significa deixar claro que a porta continua aberta, que não haverá cobrança por voltar atrás e que o apoio não depende de uma resposta imediata.

Minimizar o sofrimento ajuda alguém a se sentir segura?

Dizer que todo casal briga ou que a pessoa está exagerando tenta consolar, mas anula a percepção dela própria. Muitas mulheres chegam a duvidar do que sentem justamente porque o parceiro faz isso o tempo todo, e ouvir o mesmo de amigos confirma a dúvida. Minimizar, mesmo com carinho, tira da pessoa um dos poucos apoios que ela ainda tem: a confiança no que vive.

Na avaliação de Taiza Tosatt Eleoterio, acolher o relato começa por levá-lo a sério. Reconhecer que algo parece doloroso, sem diagnosticar nem dramatizar, já diz à pessoa que ela foi ouvida. Pormenores sobre o que aconteceu não precisam ser pedidos, e a curiosidade por eles pode machucar. Basta ouvir e perguntar como ela está se sentindo naquele momento.

Quando indicar ajuda profissional e a assistência social?

Sugerir apoio profissional é um gesto importante, mas o momento e a maneira contam. Dito como ordem, o conselho para procurar um serviço de assistência social, um atendimento terapêutico ou um grupo de acolhimento soa como mais uma cobrança. Dito como oferta de companhia, por exemplo oferecendo-se para ajudar a buscar informações, fica mais fácil de ser aceito, porque a pessoa não se sente sozinha na tarefa.

Segundo Taiza Tosatt Eleoterio, quem está ao lado pode cuidar do vínculo e deixar o acompanhamento especializado para os profissionais. A divisão alivia a pressão sobre amigos e parentes, que não precisam resolver sozinhos algo tão complexo, e protege a mulher de uma sequência de conselhos contraditórios. Na prática, manter o contato pode ser simples: uma mensagem curta de vez em quando, um convite para um café sem pauta definida, a lembrança de que há alguém disponível, sem pedir resposta nem cobrar presença.