Quando se observa um pedal de cinco horas, o que Rolando Bonaccorsi, Diretor de Operações da Vert Analytics, pondera é que a prova se resolve no abastecimento, não na largada. A nutrição no pedal longo age com atraso. O que entra na primeira hora sustenta o esforço que aparece na quarta, e o que falta ali não se recupera com um gel no quilômetro final.
O corpo armazena glicogênio em quantidade modesta. Em intensidade moderada, a reserva muscular e hepática cobre algo em torno de noventa minutos de esforço contínuo, e o que vem depois depende do que o ciclista consegue absorver enquanto pedala. A conta deixa de ser uma questão de força de vontade e passa a ser uma questão de taxa de absorção intestinal, que tem limite fisiológico e pouca relação com disposição mental.
A conta que a primeira hora deixa para a quarta
A oxidação do carboidrato ingerido não começa no instante do consumo. Existe um intervalo entre a ingestão, o esvaziamento gástrico e a chegada do açúcar à musculatura ativa, intervalo que costuma passar de vinte minutos. Rolando Bonaccorsi descreve o atraso como uma fila de processamento, em que o tempo perdido na entrada se paga no fim da linha, quando já não há margem para corrigir.
Quem espera sentir fome para comer começou tarde. A sensação de perna vazia aparece depois que o glicogênio muscular caiu abaixo de um limiar de trabalho, e nenhuma ingestão repõe aquele estoque no meio do exercício. Por isso, o protocolo de prova longa funciona por relógio, com ingestão regular desde os primeiros quilômetros, independentemente de apetite ou de sensação de leveza.
Carboidrato por hora, o número que organiza o resto
A faixa de referência para esforços acima de duas horas e meia fica entre sessenta e noventa gramas de carboidrato por hora. O limite inferior se sustenta com glicose isolada, porque o transportador intestinal responsável por ela satura perto desse valor. Para subir além disso, é preciso combinar glicose e frutose, que usam vias de absorção distintas e, somadas, ampliam a capacidade total.
A combinação explica por que bebidas e géis atuais trazem duas fontes de açúcar na composição. Rolando Bonaccorsi dimensiona a escolha como decisão de carga, não de sabor, já que a proporção entre as duas fontes define o teto de energia disponível por hora. Em subidas longas, quando a demanda sobe e o estômago reclama, a diferença entre uma fonte e duas fica evidente.
Líquido e sódio mudam conforme o dia
Hidratação não é número fixo. A perda de suor varia com temperatura, umidade, intensidade e constituição individual, e um mesmo ciclista pode perder meio litro por hora em manhã fresca e muito mais que o dobro em calor úmido. Beber por sede resolve em pedais curtos, mas falha em travessias longas, quando o déficit se acumula sem aviso claro.
O sódio acompanha o líquido. Perdas elevadas sem reposição de eletrólitos levam a cãibra, queda de palatabilidade e recusa do estômago a novos géis. Rolando Bonaccorsi situa a pesagem antes e depois do treino como o teste mais acessível para estimar a própria taxa de suor, porque entrega um dado individual em que a tabela genérica erra com frequência.
O intestino também precisa de treino
Ingerir noventa gramas por hora na prova sem nunca ter tentado em treino termina mal. A capacidade de absorção responde a estímulo repetido, e algumas semanas de exposição progressiva aumentam a tolerância a volumes maiores sem desconforto. Quem treina sempre em jejum caminha na direção oposta, porque reduz justamente a adaptação que o dia da prova vai exigir do intestino.
A prática também calibra o paladar. Produtos muito doces ou muito concentrados perdem aceitação depois de três horas, e descobrir isso no dia errado custa caro. Rolando Bonaccorsi relata o ensaio da nutrição nos treinos longos como parte do planejamento da prova, com o mesmo cuidado dedicado à escolha das marchas e ao estudo do percurso.