Café escapa do tarifaço dos EUA e alivia economia de Minas Gerais em meio à nova disputa comercial

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez Tecnologia
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Isenção do grão preserva mercado que garantiu mais de US$ 645 milhões ao estado em seis meses

A decisão do governo dos Estados Unidos de manter o café brasileiro fora da nova tarifa de 25% trouxe um alívio importante para Minas Gerais, estado que responde por parcela relevante da produção nacional do grão e que vinha acompanhando com apreensão os desdobramentos da disputa comercial entre Brasília e Washington. Segundo apuração do Diário do Comércio, a exclusão do café da sobretaxa preserva um mercado estratégico tanto para o estado quanto para o país, em um momento no qual outros setores da economia brasileira não tiveram a mesma sorte. A medida entrou em vigor a partir de 22 de julho, conforme informações do Poder360 reproduzidas por veículos especializados em comércio exterior.

O caso do café ilustra bem a montanha-russa que marcou a relação comercial entre os dois países ao longo dos últimos meses. Desde agosto de 2025, os Estados Unidos aplicam tarifas adicionais sobre produtos brasileiros dentro de uma disputa que passou por investigações amparadas na Seção 301 da lei comercial americana, mecanismo que já envolveu mais de 60 países. Em novembro do ano passado, Washington chegou a formalizar reduções de tarifas sobre carne bovina, café, tomate e banana, mas manteve por um período uma taxa adicional de 40% sobre outros produtos agrícolas, revogada posteriormente. A Suprema Corte dos Estados Unidos ainda chegou a decidir, em fevereiro deste ano, que as tarifas globais impostas pelo governo americano eram ilegais, decisão que não impediu novas rodadas de negociação ao longo do primeiro semestre.

Por que o café ficou de fora da tarifa de 25%

Na rodada mais recente, divulgada em julho, o governo americano apresentou uma extensa lista de exceções à nova tarifa de 25%, e o café, tanto na versão de grão verde quanto na forma solúvel, apareceu entre os produtos isentos, ao lado de carne bovina, carne de frango, petróleo e aeronaves. A justificativa apresentada pelas autoridades americanas é de que se trata de produtos que os Estados Unidos não conseguem substituir facilmente por fornecedores de outros países, o que reforça a posição estratégica do Brasil, e de Minas Gerais em particular, nesse mercado específico. Segundo dados citados por veículos especializados, o café responde por parcela relevante do que o Brasil vendeu aos Estados Unidos apenas no primeiro semestre deste ano.

Minas Gerais tem motivos concretos para comemorar essa exceção. Reportagem do portal Moon BH apurou que a isenção protege um fluxo comercial que garantiu US$ 645,8 milhões ao estado somente no primeiro semestre de 2026, de acordo com dados da Secretaria de Estado de Agricultura de Minas Gerais. Produtores do Sul de Minas e do Cerrado mineiro, regiões historicamente ligadas à cafeicultura de alta qualidade, passaram semanas de incerteza monitorando o noticiário comercial vindo de Washington, com temores de que um eventual bloqueio tarifário travasse negociações e paralisasse o escoamento de sacas de café armazenadas no interior do estado.

Nem todo o agronegócio mineiro teve a mesma sorte

Apesar do alívio no setor cafeeiro, a decisão americana não representou boas notícias para todos os segmentos da economia mineira. Levantamento da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais, a Faemg, mostra que produtos como açúcar e etanol continuam sujeitos à sobretaxa americana, o que compromete a competitividade desses itens no mercado dos Estados Unidos. A entidade destacou que a decisão anunciada na quarta-feira anterior à entrada em vigor da tarifa encerra a fase ordinária da investigação americana e não prevê, por ora, abertura de novo processo para solicitação de exclusões, embora futuras mudanças na lista de exceções continuem sendo possíveis por decisão do próprio governo dos Estados Unidos.

O impacto do tarifaço para Minas Gerais vai além do agronegócio. Estudo da própria Fiemg aponta que o estado está entre os mais vulneráveis aos efeitos da medida, dado o peso das exportações de café, ferro, aço e ferroligas destinadas ao mercado americano. Em 2024, Minas Gerais exportou cerca de US$ 4,6 bilhões para os Estados Unidos, o que faz do estado o terceiro maior exportador brasileiro para o mercado americano, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro, com esse volume representando aproximadamente 2,3% do Produto Interno Bruto mineiro. A siderurgia mineira, especializada na produção de ferro-gusa, aço e ferroligas, é apontada como um dos segmentos que pode sofrer retração próxima de 12% na produção caso as tarifas permaneçam em vigor por um período prolongado.

O que ainda pode mudar nas próximas semanas

Apesar do desfecho favorável ao café, representantes do setor produtivo mineiro mantêm cautela em relação aos próximos passos da política comercial americana. Segundo declarações reproduzidas pelo Diário do Comércio, ainda há uma investigação em curso conduzida pelo United States Trade Representative que pode resultar em tarifa adicional de 12,5% sobre produtos brasileiros, o que manteria o setor em alerta mesmo após o alívio recente. A avaliação de entidades como a Faemg é de que será fundamental acompanhar de perto os desdobramentos da política comercial americana e intensificar a diversificação de mercados de exportação, reduzindo a dependência excessiva de um único destino comercial.

Para a economia mineira, o episódio do café reforça como decisões tomadas em Washington podem ter efeito direto sobre cooperativas, produtores rurais e trabalhadores do interior de Minas Gerais. A combinação entre alívio pontual em um setor estratégico e permanência de riscos em outras cadeias produtivas deve manter o tarifaço americano como tema recorrente no noticiário econômico do estado ao longo dos próximos meses, especialmente enquanto a disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos não chega a um desfecho definitivo.

Fontes consultadas: Diário do Comércio, disponível em: https://diariodocomercio.com.br/agronegocio/cafe-sobretaxa-eua/ Movimento Econômico, disponível em: https://movimentoeconomico.com.br/economia/comercio-exterior/2026/07/16/isentando-carne-e-cafe-eua-comecam-a-cobrar-tarifa-de-25-ao-brasil-no-dia-22/ Moon BH, disponível em: https://moonbh.com.br/capital-m/2026/07/17/estados-unidos-recuam-de-nova-tarifa-e-salvam-mais-de-usd-600-milhoes-em-exportacoes-mineiras/ Estado de Minas, disponível em: http://www.em.com.br/economia/2026/07/7463529-setor-produtivo-analisa-impactos-do-tarifaco-para-minas-gerais.html Ibiá em Foco, disponível em: https://www.ibiaemfoco.com/post/tarifa%C3%A7o-dos-eua-pode-atingir-em-cheio-a-economia-de-minas-gerais-e-gerar-reflexos-no-alto-parana%C3%ADba