Ativos estressados não são novidade, e conforme alude Felipe Rassi, especialista em créditos estressados, o que é novo é a forma como passaram a ser tratados, não como resíduo indesejável do sistema de crédito, mas como componente deliberado de estratégias de alocação sofisticadas. Essa transição de percepção tem fundamentos concretos: mudanças estruturais na economia brasileira, evolução do arcabouço legal de insolvência e uma geração de gestores com formação técnica capaz de trabalhar com a complexidade inerente a esses ativos. O resultado é um segmento que cresce em volume, em diversidade de participantes e em relevância para o sistema financeiro como um todo.
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Fatores estruturais que ampliaram a oferta de ativos estressados no país
De acordo com Felipe Rassi, o Brasil produziu, nas últimas duas décadas, condições estruturais que alimentam de forma relativamente contínua o mercado de ativos estressados. Ciclos econômicos de alta volatilidade, taxas de juros historicamente elevadas que comprimem as margens de empresas alavancadas, concentração setorial que torna cadeias inteiras vulneráveis a choques específicos e um ambiente de crédito bancário que oscila entre expansão agressiva e contração abrupta criam, de forma sistemática, um fluxo de ativos que saem da categoria de performing para distressed.
O sistema bancário brasileiro tem um papel ativo nessa dinâmica, dado que bancos com carteiras problemáticas enfrentam pressões de capital, provisão e eficiência que tornam a cessão dessas carteiras a terceiros especializados uma alternativa economicamente racional. Esse fluxo de cessões, que se intensificou com a maturação do mercado secundário e com a crescente aceitação regulatória de estruturas de veiculação de crédito, criou um canal de distribuição consistente de ativos estressados do sistema bancário para o mercado de capitais.
O segmento corporativo de médio porte é outra fonte relevante, destaca Felipe Rassi. Empresas com receitas entre cinquenta e quinhentos milhões de reais frequentemente carecem da visibilidade e do acesso a capital necessários para navegar períodos de estresse sem comprometer a estrutura de passivos. Quando chegam a um processo de reestruturação, carregam ativos operacionais muitas vezes saudáveis presos em uma estrutura financeira desequilibrada, exatamente o tipo de situação que investidores especializados buscam, porque o valor está lá, aguardando alguém capaz de liberá-lo.
Por que a estratégia importa mais do que o timing na compra de ativos distressados?
A tentação de tratar investimentos em ativos estressados como operações de timing de mercado, comprando no fundo do ciclo e vendendo na recuperação, descreve apenas a camada mais superficial da estratégia eficaz nesse segmento. Os gestores que operam com consistência nesse mercado sabem que o retorno depende muito mais da capacidade analítica de identificar ativos com valor recuperável real do que da habilidade de acertar o momento do ciclo econômico. Para o empresário Felipe Rassi, um ativo precificado com desconto excessivo em qualquer ponto do ciclo é uma oportunidade; um ativo sobrevalorizado, mesmo em fundo de ciclo, é uma armadilha.

A estratégia de posicionamento começa pela especialização setorial. Investidores que desenvolvem expertise profunda em setores específicos, como infraestrutura, agronegócio, saúde ou varejo, conseguem avaliar ativos com uma precisão que generalistas simplesmente não alcançam. Conhecer as dinâmicas operacionais do setor, os ciclos de capital específicos e as nuances das garantias típicas daquela indústria transforma a análise de crédito estressado de exercício estatístico em avaliação fundamentalista com alto grau de confiabilidade.
A construção de portfólio também segue lógica própria. Diferente de portfólios de renda fixa convencional, em que a diversificação reduz risco sem comprometer retorno de forma linear, em créditos estressados a concentração em situações bem analisadas frequentemente produz resultado superior à diversificação por diversificação. Segundo o especialista em créditos estressados, Felipe Rassi, cada posição exige trabalho intenso de due diligence e, muitas vezes, de acompanhamento ativo pós-investimento. Gestores com capacidade operacional limitada que se dispersam em muitas posições pequenas acabam com um portfólio que não conseguem acompanhar com a profundidade necessária.
Como o cenário regulatório recente mudou o campo de jogo?
A atualização da Lei de Falências em 2020 representou um marco para o mercado de ativos estressados no Brasil. As mudanças que facilitaram a venda de ativos em bloco durante processos de recuperação judicial, que reduziram o risco de sucessão trabalhista e tributária para compradores de unidades produtivas isoladas e que criaram mecanismos mais eficientes para a aprovação de planos de recuperação alteraram substancialmente o cálculo de risco de quem investe nesse segmento. Felipe Rassi comenta que a maior previsibilidade dos processos aumentou a atratividade do mercado para investidores que antes evitavam exposição ao risco processual brasileiro.
A regulamentação dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios trouxe uma estrutura de veiculação padronizada que facilitou a entrada de investidores institucionais e a captação de recursos de forma mais transparente. A possibilidade de estruturar FIDCs com política de investimento específica para créditos estressados, com governança adequada e com possibilidade de acesso por investidores qualificados, criou um veículo que democratizou parcialmente o acesso a uma classe de ativos antes restrita a pouquíssimos participantes com capital e estrutura próprios.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez